Existe uma sensação cada vez mais difícil de ignorar: a de que o mundo acelerou além da nossa capacidade de interpretá-lo. Instituições parecem perder relevância em tempo real, tecnologias remodelam comportamentos antes mesmo de serem compreendidas e modelos políticos, econômicos e sociais já não conseguem oferecer respostas estáveis.
Esse novo cenário foi tema da Roda de Conversa do Derrubando Muros desta quinta-feira, 07, que contou com a participação do engenheiro de produção Felipe Feldens, a cientista política Marina Slhessarenko e o cientista da computação Silvio Meira. Também estiveram presentes convidados como José Aníbal, presidente do PSDB, Igor Marchesini, assessor especial do Ministério da Fazenda, o pecuarista Pedro Camargo Neto e o político Tarso Genro.
O encontro reuniu diferentes gerações e campos de atuação em torno de uma inquietação comum: compreender as rupturas que atravessam democracia, tecnologia, política e vida social em um cenário marcado por mudanças aceleradas e sensação permanente de instabilidade. Mais do que buscar respostas definitivas, a conversa propôs um exercício coletivo de reflexão sobre os limites das ferramentas que ainda usamos para interpretar o presente.
Felipe Feldens abriu a conversa a partir das reflexões de seu próximo livro, O Mapa Errado. Partindo de sua experiência no varejo e no ambiente empresarial, Feldens argumentou que para ele, o mundo passou a operar em uma lógica “ininteligível”, na qual antigas ferramentas de interpretação perderam capacidade de leitura da realidade. O problema, segundo ele, não está apenas em respostas equivocadas, mas na insistência em utilizar modelos construídos para um contexto que já deixou de existir.
A provocação encontrou eco na fala de Marina Slhessarenko, que chamou atenção para os riscos de uma leitura excessivamente presa a paradigmas antigos. Embora reconheça a singularidade do momento atual, a cientista política alertou para o perigo de tratar a contemporaneidade como uma ruptura totalmente inédita, incapaz de dialogar com experiências históricas anteriores. Marina lembrou que períodos de instabilidade profunda já produziram sensações semelhantes de esgotamento institucional e desorientação coletiva.
Mas foi no debate sobre tecnologia e política que a conversa ganhou contornos mais inquietantes. Marina analisou o avanço de novas narrativas tecnológicas associadas à extrema direita global e destacou a capacidade desses grupos de disputar projetos de futuro com linguagem sofisticada, coesa e estrategicamente articulada. Ao comentar recentes manifestos produzidos por setores ligados ao Vale do Silício e à indústria de tecnologia, apontou para uma reorganização ideológica que busca aproximar inteligência artificial, segurança nacional e democracia sob uma lógica de forte integração entre tecnologia e poder estatal.
Silvio Meira aprofundou essa percepção ao discutir o impacto estrutural das plataformas digitais sobre a democracia e o cotidiano. Para ele, vivemos uma mudança de escala inédita, em que “o batente da descontinuidade nunca foi tão alto e tão rápido”. Em um ambiente “figital” — simultaneamente físico e digital —, a política deixou de ocupar apenas os espaços tradicionais e passou a operar dentro dos fluxos algorítmicos das redes, plataformas e sistemas inteligentes. Nesse contexto, conceitos clássicos de mediação, representação e até racionalidade entram em crise.
Ao longo da Roda de Conversa, emergiram reflexões sobre educação, inteligência artificial, democracia, comunicação e futuro do trabalho. Entre diagnósticos duros e divergências produtivas, talvez tenha prevalecido uma percepção comum: ainda não possuímos linguagem suficiente para explicar completamente as transformações em curso. Mas reconhecer essa insuficiência pode ser o primeiro passo para construir novas formas de imaginar o futuro.
Assista à íntegra do encontro no vídeo a seguir: